sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Macacadas

A minha mãe conta sempre a mesma história. E eu que sou o mais velho, lembro-me de a ouvir em todos os jantares de família. Já a sei de cor. Vem a sobremesa e começa o teatro. Acho que já é tradição haver bananas como pretexto de a contar. Alguém tira a casca ao fruto amarelo e brinca: «Olha a casquinha, olha, olha» e os outros «óóóó áááá» e riem-se muito alto. O meu irmão é muito envergonhado e não gosta e eu tenho pena dele. Depois há outro que se levanta e põe uma almofada por dentro da camisola, tentando fingir uma gravidez. «Não é assim, homem!» grita a minha tia e mete a mão nos rins e sopra, sopra aflita. O meu tio Mário, que traz sempre uma garrafa de vinho só para ele por se achar um grande especialista (às vezes ouço os outros a comentar baixinho que é uma zurrapa), ajeita a casca no chão com esmero. Ainda curvado, abre os braços e alerta: «Cuidado, cuidado, muita cautela!». «Ó Marta, é a tua vez!». É então que a minha mãe se levanta e se enquadra com a casca que repousa no chão.
Eu ainda me lembro daquele dia. Vínhamos do centro comercial e eu comia um gelado de baunilha e chocolate. A minha mãe e o meu pai conversavam animados. Foi aí que se pisou a famosa casca. O pé da frente mais para a frente foi, o de trás não quis acompanhá-lo e uma magnífica espargata surgiu em plena Rua da Glória. «Uuuuiii!»
O meu irmão nasceu nesse dia.



Baseado em factos factualmente factuais.

Publicado no jornal O Riachense a 5 de Novembro de 2014



quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Jóia de Moço

Nasceu num berço humilde, alimentando-se do seio fraco da jovem viúva, sua mãe. Cedo se habituou a viver com o pouco que lhe chegava a casa. Não era dado a grandes correrias como os outros meninos, o alimento perdurava no organismo por pouco nutritivo que fosse. Mas nem por isso deixava de ter amigos, aliás, todos gostavam dele. Aprendeu a curar as feridas dos joelhos e cotovelos dos colegas que jogavam à bola, ajudava todos a fazer os deveres, dizia sempre "Bom dia" quando se cruzava com alguém e, mais importante que tudo isso, estava sempre a sorrir! Chamavam-lhe Coração de Ouro.
Arranjou trabalho, mas todo o dinheiro que recebia confiava-o à mãe, sua companheira de toda a vida. Nunca quis nada para si, dizia que as "coisas" o faziam doente e sempre que se via a braços com uma "coisa" procurava de pronto alguém que lhe fizesse melhor proveito. "Ai, meu bom homem, é mesmo como dizem: o teu coração é do mais puro ouro!"
Por ali passava um forasteiro de ouvido aguçado que logo esfregou as mãos e encurvou as costas. Assim que se apanhou a jeito deitou as mãos à navalha e cravou-a fundo no peito do homem do coração de ouro. Vasculhou as entranhas em busca do metal precioso e puxou com força para fora. Sacudiu o sangue e espetou a trivial dentada.
Era pechisbeque.


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Telessanita

«Mas pense bem, senhor presidente, pense só nos benefícios: jamais precisaria de esburacar as estradas e condicionar o trânsito, acabava-se com o mau cheiro das fossas e sarjetas, nada de entupimentos desagradáveis… e depois todas as novas possibilidades que a tecnologia permite!»
«Sim, mas… quer dizer… esgotos WiFi?»
«E não só! Também a distribuição da água, do gás natural e da electricidade podiam ser feitas por satélite! Tudo isso no mesmo pacote e com possibilidade de sincronizar automaticamente com o telemóvel e redes sociais! Basta clicar na aplicação e vusshhh, a internet trata de enviar todo o conteúdo da sanita directamente para o espaço!»
«E se houver problemas de rede?»
«Quais problemas de rede quais carapuça! Guardam-se os resíduos num disco rígido externo e elimina-se mais tarde. Não é bem melhor do que andar aqui com maquinaria pesada a criar engulhos por todo o lado? Já para não falar na poeira.»
«Alto lá! Nem me fale de poeira, venha de lá esse contrato!»
«Bem vindo à Era Digital, senhor presidente!»


quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Carta Aberta

Ao senhor ministro responsável pelas questões climatéricas.

Serve o presente manifesto para dar conta ao Senhor Ministro e restante executivo da indignação que impera no seio da população portuguesa perante este cenário vergonhoso que se nos apresenta e que têm o atrevimento de chamar “Verão”!
Depois de toda a política de austeridade, cortes inadmissíveis nos salários e pensões, aumentos psicopatas na carga fiscal e mais toda a pouca vergonha que nos entra em casa todos os dias, ainda tem o Senhor Ministro o desplante de vir cortar também naquilo que é nosso por direito! Dada a localização geográfica do país está mais que sabido que o calor e as noites quentes de Agosto florescem naturalmente por todo o território continental durante este período, pois então o que é feito disso tudo, Senhor Ministro? Foi parar à Alemanha? É com isto que se pagam as dívidas criadas pela vossa incompetência e ganância?
Mais lhe digo, Senhor Ministro, que o país só perde com estas políticas de interesses. Somos um país de turistas que procuram nas nossas terras aquilo que não há nas suas, isto é, Sol! Estando os Senhores a desviar o nosso património estão também a destruir a economia nacional e a comprometer seriamente o futuro dos nossos filhos.
E estes ventos reles? Diga lá, Senhor Ministro, quem é que quis agradar com isso? Malbaratar os dinheiros dos contribuintes nesta miséria de escolhas climatéricas! Cheira-me a mais um esquema obscuro qualquer que não tarda se vai ouvir falar. Mas saem sempre todos incólumes!
Enfim, é o país que temos. Apanham-se no poleiro e é tudo a meter ao bolso. Na sua casa de certeza não há falta de calor.


quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Fumar Mata

Glup.
De uma assentada esvaziou mais um copo de whisky duplo. Depois entreteve-se com as pedritas de gelo. Primeiro, com os dedos dentro do copo, misturava-as com o vazio para um lado e para o outro, irritando o dono da taberna até quase perder as estribeiras. Logo enfiou-as na boca e cuspiu-as para o ar soltando uma risada histérica. « Basta!» Barafustou o taberneiro atirando a toalha para cima da caixa registadora «Não lhe sirvo mais nada! Salde a sua conta e dê corda aos sapatos!» O pinguço fez uma carantonha meio de espanto outro tanto de repúdio enquanto se inclinava para trás, mantendo o equilíbrio não se sabe bem como. Atirou-se para o balcão e agarrou a garrafa que escorropichou com enorme destreza. «Aaaaah!» Atirou umas moedas para o ar e cambaleou até à porta derrubando duas cadeiras e um cinzeiro pelo caminho. «Beço desgulpa, minha zenhora.»

Deteve-se abraçado a um simpático candeeiro que teve a amabilidade de o amparar evitando maiores infortúnios e investigou os bolsos até dar com os cigarros. Colocou um nos lábios e tacteou de novo a roupagem em busca do isqueiro. Levou algum tempo até conseguir alinhar o instrumento flamejante com a ponta irrequieta do cigarro. Por fim, lá fez a faísca. Antes que o cigarro tivesse tempo de se acender já o bafo alcoólico do homem tinha provocado uma enorme bola de fogo que iluminou a taberna por breves segundos.

«Estas explosões vão acabar por afastar a clientela» pensou o taberneiro enquanto riscava o nome do homem da sua agenda.


Publicado no jornal O Riachense a 5 de Agosto de 2014

quinta-feira, 24 de julho de 2014

A Maçã

Isaac estava confortavelmente recostado sob os ramos da grande macieira enquanto se debatia com complexos cálculos matemáticos que ia anotando no seu caderno de mão. Embrenhou-se de tal forma nos estudos que nem os abomináveis insectos esvoaçantes o importunavam. Dir-se-ia que estava noutro mundo, o seu mundo.
De súbito, e sem que nada o fizesse prever, uma maçã desprende-se do seu pedúnculo indo escarrapachar-se precisamente no cocuruto da ilustre cabeça de Isaac, trazendo-o de volta à Terra.
Plaf!
«Ai caraças» bradou Isaac atónito «isto era escusado!» Esfregando a cabeleira, olhou o fruto caído com um misto de raiva e admiração. Depois iluminou-se. «Ó diacho! Então pois claro, trata-se sem dúvida da Lei da Gravitação Universal!»
Um transeunte que por ali passava testemunhou a ocorrência e ouviu a explicação. De imediato se pôs alerta. «Uma lei que faz cair coisas?»
A notícia depressa se espalhou, chegando aos ouvidos dos Homens do Poder.
«Não podemos permitir isto! É um risco demasiado grande. O governo não pode cair por causa desta lei.» «O que pensa fazer, senhor Primeiro-Ministro?» «Vamos votar a lei no Parlamento.»
Claro que houve unanimidade, ninguém gosta de cair muito menos quando se está no topo da pirâmide.
A maçã levitou-se então e de novo foi embater na cabeça de Isaac que flutuava sobre os ramos da grande macieira.



sexta-feira, 20 de junho de 2014

Paixão

A Paixão surgiu logo no primeiro dia, ardilosa e autoritária. A sua argúcia enlevou as hostes que passaram a glorificá-la. Era ver os suplícios a que se dispunham para servir a grandiosa Paixão. Ergueram monumentos, sacrificaram vidas, ofereceram os melhores alimentos, festejaram noite e dia mostrando o seu amor e subserviência.

Todavia, apesar das artimanhas, havia quem resistisse à velha perícia ludibriosa da Paixão. No seio do domínio apaixonado estava uma pequena moça sentada num pedestal penteando os longos e sedosos cabelos ondulados. Era a Indiferença. 

A Paixão bramiu e sacudiu, ordenou que todos se unissem para conquistar a obstinada Indiferença. Mas por maior que fosse a luxúria em seu redor a pequena não se movia. Ardendo de cólera, a Paixão matou todos os seus súbditos, destruiu os campos e as casas, derrubou os monumentos, queimou as árvores e prostrou-se aos pés da Indiferença, implorando por um gesto. A Indiferença ergueu-se e partiu dizendo:

«Os teus artifícios não me impressionam e a tua impaciência aborrece-me. Senta-te no meu pedestal e olha à tua volta, vê o que fizeste. Como posso gostar de ti?»



quarta-feira, 4 de junho de 2014

O Jardim

Olhando pela janela da sala (e não estou a falar da televisão) vejo que tenho o jardim cheio de ervas daninhas (e não me refiro aos políticos nem aos grandes empresários); os arbustos têm imensos ramos mortos a tirarem força aos novos (e isto não quer dizer que há por aí muita gente que não faz nada a ocupar o lugar de quem realmente trabalha); as árvores estão a morrer à sede (e não falo da má distribuição do dinheiro); os frutos estão a cair (e não digo que há cada vez mais desempregados); o poço está a ruir (e isto não tem nada a ver com o sistema de ensino completamente ultrapassado); o muro está a desabar (nunca falei em presidente ineficaz!); o portão está partido (partido?); há lixo por todo o lado (eia, esta foi forte).
Enfim, não quero com isto fazer metáforas.
O que quero realmente dizer é que o meu jardim precisa de uma intervenção de fundo. Mas não tenho dinheiro para o jardineiro. Por isso, vou eu mesmo cuidar dele, com a ajuda de quem me quiser dar uma mãozinha.
No fim, faremos um belo lanche à sombra daquela macieira velha (e com isto quero dizer que há remédio!).



Publicado no jornal O Riachense a 4 de Junho de 2014

Moda

Hoje, enquanto passeava pelo parque, um crocodilo devorou-me a perna.
E as calças eram novas!



segunda-feira, 26 de maio de 2014

Moscas

Hoje foi dia de uma visita do patrão ao escritório. Não pude deixar de notar o seu novo perfume. Realmente é uma pessoa de mau gosto, quase parecia uma mistura de naftalina vagamente disfarçada com rosmaninho. Abri a janela, claro, e nesse momento entraram duas moscas. O patrão fartou-se de enxotar e as moscas não o largavam. Depois entraram mais três e a seguir cinco. Desatou a correr pelo escritório.
Há noite, sintonizei o noticiário. Parece que o parlamento foi evacuado devido a uma estranha invasão de varejeiras.
Pelos vistos o mosquedo ganhou resistência ao fedor a naftalina. Já nem isso encobre o cheiro a esturro.



sábado, 10 de maio de 2014

Nabos

Atirou o caixote com os nabos para cima da camioneta, sacudiu as mãos e dirigiu-se ao mercador. «São dez dinheiros, meu senhor» disse o agricultor. «Dou-lhe oito e para a próxima quero os nabos maiores, ouviu?» «Sim, meu senhor, obrigado.»

Transportados os nabos para o mercado foi a vez do mercador exigir o que lhe era devido. «Aqui tem os quinze dinheiros pelo caixote. Pode pô-lo ali.»
E ali ficou.
A noite caiu e à primeira badalada chegou o primeiro investidor. «Dou-lhe vinte dinheiros por esses nabos.» Sentou-se ao lado do caixote e esperou pela segunda badalada. «Belos nabos. Quanto quer?» «Trinta dinheiros.» Arrecadou-os no bolso e seguiu viagem. O seu lugar, ainda quente, foi ocupado pelo segundo investidor.

Ouviu-se a terceira e o terceiro chegou, acenando com os quarenta.
Veio o quarto com os cinquenta e os nabos ali estavam, à espera do quinto com os sessenta.
Quando o sino bateu as seis foi a vez do homem da mercearia. Os nabos eram agora Senhores Nabos de altíssima categoria. O homem pegou no caixote e, por fim, lá o fez seguir o seu curso.

«Como estão caras estas hortaliças, senhor Amílcar.» «Ora essa, Dona Custódia, nabos do melhor que há na região! Promoção especial a noventa e nove o quilo! Não os encontra mais baratos em lado algum!» «Ai se eu tivesse a minha hortinha...» suspirou a Dona Custódia, enquanto os outros esfregavam as mãos de contentes, que de nabos não têm nada porque levam os bolsos cheios. Todos menos o primeiro, o que faz crescer os nabos.




Publicado no jornal O Riachense a 7 de Maio de 2014

sábado, 3 de maio de 2014

Na Aldeia

Entretanto fui a casa da dona Emília — que era uma senhora que limpava sempre tão bem que até se podia lamber o chão depois da faxina — e pedi-lhe dois salpicões e uma cebola para confeccionar uns manjares. A dona Emília — que para além de manter a casa num brinco também é uma besta — lançou-me um enxorrada de ofensas e impropérios, ao que parece por eu ter limpo a lama das botas no tapete destinado às visitas e, para além disso, não é de bom tom pedir dois salpicões a uma senhora que toda a gente sabe ser hipertensa e não se pode dar ao luxo de consumir tais iguarias. Eu disse-lhe que minha senhora não se exalte, ao fim e ao cabo eu também sou uma visita e os tapetes servem mesmo para limpar os calcantes e antes que pudesse dizer alguma coisa acerca dos salpicões a mulher teve um espasmo e caiu redonda no chão.

Fui-me dali embora sem os salpicões e ainda por cima sem a cebola — que nem isso a sovina quis dispensar — e acelerei o passo até à mercearia que vende fiado, mas cujo dono só é afável quando faz bom tempo e não está demasiado calor. Nos últimos dias tem estado farrusco, por isso era quase certo que ia ter de pagar os malditos salpicões e a cebola e ainda tinha de saldar a dívida da semana passada, quando fui lá abastecer-me de uma saca de batatas para fritar, dois quilos de maçãs — que por acaso estavam óptimas — e uma dúzia de ovos. Ao entrar na mercearia dei conta que quem estava a atender não era o dono mas sim o filho, que costumava servir à mesa num restaurante lá da cidade mas foi despedido por andar sempre a surripiar azeitonas do pote. Depois disso voltou para casa do pai. Fiquei mais descansado porque entretanto reparei que não tinha comigo o porta-moedas.

Saí da mercearia com os salpicões e a cebola e fui para casa. Pelo caminho vejo um corrupio de gente a correr rua abaixo e ao fundo uma ambulância. Fui também ver o que era e apercebi-me que estavam todos a amontoar-se à porta da rabugenta da dona Emília e algumas das senhoras mais velhas soltavam gritinhos agudos, como o cão do sr. Almiro quando o malandro do neto lhe pisa o rabo. Perguntei o que se passava mas estava tudo num alvoroço e valha-me deus para aqui e acudam-na para ali e deixem passar para acolá, quando chegou o padre. Ao padre já responderam, coisa que me fez um bocado de espécie porque o que é o padre a mais do que eu se somos todos filhos de deus? Pelos vistos a cretina não morreu, foi só um desmaio e ainda bem porque senão ia ser um trinta e um para reaver a vassoura que lhe emprestei anteontem, quando a dela se partiu de tanto varrer.

Quando conseguiram reanimar a velhaca deram todos graças a deus e bendito seja o padre que em boa hora chegou, ao que eu disse: e os bombeiros, minhas senhoras? E aí foi logo um ai Jesus porque a imbecil da dona Emília desatou aos berros a dizer que eu era um corno e a culpa era minha e maldito sejas e mais as tuas botas e que eu devia ter vergonha por não sei o quê e mais a minha mãe e aí é que morreu mesmo, a histérica.
Não tive outro remédio senão sair dali a correr rua acima e ainda levei com um sapato que vim a saber mais tarde ser do padre. O pior é que deixei cair os salpicões, uma das velhas escorregou neles, caiu para trás e atropelou as outras que aí vinham. Só se salvou o padre porque não conseguia correr só com um sapato.

No funeral da dona Emília e da dona celeste — que eram primas e às vezes iam juntas à missa — o padre fez questão de mencionar os salpicões, dizendo que a gula e a inveja estavam na base desta tragédia. Eu achei aquilo um exagero mas não disse nada porque a verdade é que um dos viúvos estava de olho em mim e ainda me doíam as costas por causa do sapato do padre — que era realmente rijo, não admira que esteja sempre aflito dos joanetes.
Depois foi o funeral da dona São, da dona Berta e da dona Natércia, que era esposa do dono da mercearia onde nunca mais pude comprar fiado. Desta vez já ninguém falou dos salpicões mas deitaram-me cá uns olhares fulminantes que eu achei que o melhor mesmo era emigrar.
Com a pressa esqueci-me de trazer meias.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Sibilante

Se Susana Sousa saísse sozinha, sabia saltar sobre seixos secos sem se sujar. Sabia soletrar sílabas simples. Sabia secar soalhos. Sabia semear salsa. Sabia situar seis secções semelhantes…
Sua sobrinha Sara Sofia Santos, sentinela, salvou sete senhores sem sangrar.
- Sara!
- Sim?
- Sobe!
- Sim, senhora!
Seguidamente Sara sentou-se sobre saliências sujas.
- Socorro! Sujei-me!
- Sara, sujas-te sempre! Safa! – Suspirou Susana.


quinta-feira, 10 de abril de 2014

O Impostor

Partiu o velho naco de pão em três, um para ela, um para o homem, outro para o petiz. Era já muito rijo mas sabia bem mergulhado no leite. Sopas, como se diz.
Também três foram as leves pancadas que soaram da porta. Quem poderia ser tão cedo, era o que perguntava a mulher a si mesma enquanto tentava ajeitar o cabelo desgrenhado e oleoso que lhe cobria a face branca e exageradamente magra.
Era um homem vigoroso, limpo, fato impecavelmente engomado e gravata com um nó perfeito. Trazia uma mala. “Teria a bondade de ajudar com o que tiver, minha nobre senhora? É pelo bem da Nação.” A mulher condoeu-se do pobre senhor e logo lhe entregou o fio que trazia ao pescoço, uma lembrança que lhe dera a sua mãe. “É tudo o que tenho”, disse a mulher. “Muito obrigado. Que o senhor presidente esteja consigo”.
O cobrador de impostos guardou o fio na mala, junto das outras jóias, e partiu para a porta seguinte.
No outro mês tinha-se acabado o pão naquela casa velha e vazia.




Publicado no jornal O Riachense a 9 de Abril de 2014

sábado, 29 de março de 2014

Questão de Consistência

— Santinha!
— Obrigada. — disse a moça. Pediu-me um lenço que lhe entreguei de seguida.
— Parece que se resfriou, a menina.
— Assim é. Devo ter-me descuidado com os agasalhos.
Libertas as cavidades nasais dos mucos indesejados, prossegui o diálogo.
— Sabe menina, não quero que lhe pareça mal mas, como cidadão mais velho e vivido, sinto-me no dever de lhe oferecer um conselho, ou melhor dizendo, ensinar-lhe um truque valiosíssimo que a experiência de vida me ensinou e que passo agora a descrever. Há já várias décadas que deixo sempre um pacote de manteiga no parapeito exterior de uma janela, abrigada do Sol, como é evidente. Enquanto a consistência da manteiga não permitir o eficaz barramento do pão-de-forma, nunca saio à rua sem o meu sobretudo! Não me constipo desde 1972.


domingo, 23 de março de 2014

Inflamações

— Ai, Anacleto, ardo de paixão!
— Ardes?
— Mas que calores, meu amor!
— Sentes-te quente?
— Oh sim, quando estou perto de ti a minha temperatura sobe!
— Muito?
— Sim, meu anjo, estou tão quente agora!
— Então abraça lá esta panela e faz uma sopa.


quarta-feira, 19 de março de 2014

O Civil

Desta vez quase fui atingido, mas escapei por pouco. Os da esquerda atacavam sem piedade em todas as direcções, não tinham qualquer tipo de organização ou critério. Os da direita respondiam assertivos, com empáfia e uma certa malícia. Tentei improvisar uma barricada com o que pude encontrar, mas não tinha hipótese. Eram demasiados e o seu poder incalculável. Usavam todo o tipo de armas, desde as mais primitivas às mais modernas, fulminantes. Arrasavam tudo.
As galerias ecoavam sons ríspidos indecifráveis e de uma potência incrível, tal era a intensidade da luta e rivalidade. Já não aguentava mais, tinha de sair dali a todo o custo! Para onde quer que olhasse lá estava um, pareciam todos iguais mas lutavam entre si. Soltei um grito desesperado e apanharam-me. Esperneei, esbracejei e gritei. Tornar-me-ia um deles? Estava a enlouquecer. Foi a minha salvação!
Prefiro estar aqui encarcerado do que voltar lá, àquele campo de batalha horrendo.
É preciso ter estômago para ir ao parlamento.



Publicado no jornal O Riachense a 19 de Março de 2014

terça-feira, 11 de março de 2014

Conquistas

Venâncio e os seus homens pareciam estar a dominar a batalha. Restavam apenas dois marinheiros, comandados pelo capitão Baltazar, contra os onze de Venâncio. O zumbido das espadas silenciava as ondas que rebentavam no casco do velho navio. A luta pelas terras desertas era feroz mas Venâncio sorria, antecipando a sua nova conquista.
O capitão Baltazar foi encurralado na proa e não tinha hipótese. Com um golpe seco e sem misericórdia, Venâncio cortou a perna de Baltazar que caiu sem forças junto ao leme da sua própria embarcação.
Venâncio quis fazer troça do seu velho inimigo e avançou para as terras virgens sem o matar, para que Baltazar o visse clamar as novas terras. Os homens lançaram-se à água num pequeno bote e remaram sob as ordens de Venâncio que seguia de pé, mão esquerda na cintura e a direita empunhando a espada ainda ensanguentada.
Nisto, ouve-se um grito de raiva. Era Baltazar que pegara na sua perna cortada e a lançara para terra. Foi o primeiro a pôr o seu pé nas terras desertas e, por isso, era o legítimo conquistador! Venâncio ajoelhou-se pasmado e submeteu-se ao seu novo líder.


 “Nunca cortes a perna do teu inimigo, se o seu forte são os braços.”


segunda-feira, 10 de março de 2014

Formiga Rabiga e a Pobre Rapariga

Certo dia, o Coelhinho Branco foi à horta buscar couves para fazer um caldinho e quando de lá voltou encontrou a porta fechada. «Ora esta!», pensou o Coelhinho, e bateu à porta.
— Quem está aí? — perguntaram de dentro.
— Isso pergunto eu, a casa é minha! — respondeu o Coelhinho já a começar a ficar com os azeites.
— Eu sou a Cabra Cabrês que te salto em cima e te faço em três! — disse a Cabra toda fanfarrona.
— Ah não, hoje não, é muito tarde e a Rainha está à espera, tenha paciência! — exclamou o Coelhinho Branco enquanto agitava freneticamente o seu relógio — Ou sai imediatamente ou eu chamo a Formiga Rabiga que lhe trepa pelas pernas e lhe fura a barriga!
Nesse momento, surge Maria Alice a correr muito atrapalhada mas decidida.
— Não é preciso Senhor Coelho, eu estou aqui e vou ajudá-lo. Dê-me só um bocadinho da sua couve e vai ver que resolvo o problema num instante!
O Coelhinho Branco olhou Maria Alice de esguelha mas lá a deixou arrancar uma folha à couve. Maria Alice trincou um pedaço e mastigou.
— Um pouco rija... — disse Maria Alice e enfiou o resto da folha de couve na boca. Mastigou, mastigou e mastigou ruidosamente até que, depois de uma pequena pausa, engoliu a couve. A Cabra Cabrês que olhava com grande atenção através do buraco da fechadura deu um grande trambolhão e desatou a rir a bandeiras despregadas.
— Tu realmente não serves para nada! — resmungou o Coelhinho Branco.


sexta-feira, 7 de março de 2014

A Fábula

Uma vez contaram-me uma fábula. Falava de um pobre diabo condenado a passar a eternidade nas profundezas do inferno, pagando pelos pecados que cometera em vida. Certa vez, cansado que estava do calor e das torturas, o pobre diabo decidiu mudar. Passou a ser bom. Ajudava os seus semelhantes a refrescarem-se um pouco, dava-lhes abraços e beijos, espalhava sorrisos e distribuía palavras de esperança por toda a sua gente. Prometia tudo fazer para garantir uma melhor eternidade aos habitantes daquele inferno miserável. Era adorado por todos.
Olhando de cima, Deus comoveu-se com a bondade do pobre diabo. Mandou então dois anjos tratarem de o trazer para o céu. «Meu bom filho, vem que estás perdoado!»
Aliás, não era assim... Agora que penso não era uma fábula sobre um pobre diabo. Era antes a história de um membro de um partido que um dia chegou a Primeiro-Ministro. Fiz confusão.
Escusado será dizer que o rico diabo voltou a fazer diabruras.


Publicado no jornal O Riachense a 5 de Março de 2014

quinta-feira, 6 de março de 2014

A Dieta

Era uma vez uma pessoa gorda. Essa pessoa era de facto gorda.
— Quem me dera ser magra! — disse a pessoa gorda.
E foi então que a pessoa gorda decidiu ser magra.
Começou por ler um artigo numa daquelas revistas sobre pessoas gordas que querem ser magras. Bem, na verdade só leu as letras gordas: "SOMOS O QUE COMEMOS", diziam as letras gordas.
— Parece fácil! — disse a pessoa gorda.
E assim foi.
Comeu uma pessoa magra.


terça-feira, 4 de março de 2014

Gadelhas

O Príncipe estava já impaciente, agitando a colher para trás e para diante.
— Despacha lá isso, mulher! — Dizia, quase perdendo as estribeiras.
— Cá vou, cá vou! Não me apresses! — era Rapunzel. Vinha com a terrina da sopa nas mãos e o cabelo mal atado à cintura. Uma madeixa, porém, tinha-se soltado e prendera-se à porta do armário da cozinha. Rapunzel deu um gritinho estridente enquanto mandava um magnífico trambolhão. Felizmente já tinha prática e conseguiu entornar apenas metade do apetitoso caldo. O Príncipe suspirou e enfiou a cabeça no prato vazio. Ergueu-a de novo e resmungou:
— Diacho, mulher, sempre a mesma coisa! Corta-me o raio desse cabelo antes que haja chatices!
— E o patrocínio? Achas que o pão que comes cresce nas árvores? E os legumes trazem-nos uns duendes simpáticos? — Rapunzel sentou-se no chão e espremeu o cabelo. — E uma mãozinha, não vai? — O Príncipe lançou-lhe o guardanapo. — Paspalho!
— Vá, levanta-te e anda comer, tratas desse molho de brócolos mais tarde.

Servidos os pratos e sanados os ânimos começou o jantar.
— Puseste esparguete na sopa?
— Esparguete? Não, que disparate!
— Ah, mas que sina a minha! Cabelo na comida outra vez?!
— Põe à borda do prato.
O príncipe pegou numa ponta e começou a puxar. E continuou. E mais um pouco.
— Que nojeira. — murmurou o Príncipe. Rapunzel parou de comer e olhou-o demoradamente.
— Que figuras.
— Isto pega-se a tudo! — ripostou ele tentando desembaraçar-se e enrolando-se cada vez mais. — Raios! Come tu a sopa, eu vou ao pão com chouriço! — Levantou-se e dirigiu-se à cozinha ainda a esbracejar. Entretanto, Rapunzel também tinha encontrado um dos seus enormes fios capilares no prato. Ergueu-se da cadeira e foi limpar o cabelo que ainda estava ensopado.

Encontraram-se de novo no quarto.
— Não ponhas essa maldita cabeleira na cama, está cheia de cotão.
— Raios partam a electricidade estática.
— Não sacudas isso aqui, ainda começo a espirrar.
— Olha, pára de reclamar e dorme que amanhã é dia de o lavar.
— Chiça!
Apagaram as luzes e dormiram. O Príncipe teve pesadelos com a lavagem do cabelo e rebolou-se na cama toda a noite. Rapunzel também estava desassossegada. Os cabelos enredaram-se, emaranharam-se, embaraçaram-se, enrolaram-se e entrançaram-se durante horas até que o casal não pôde mais mexer-se.
— Socorro! Não consigo respirar! — gritou Rapunzel aflita
— Ai mãezinha! — Sobressaltou-se o Príncipe um tanto histérico.
— Ajuda-me seu sacripanta!
— Ai ai! Ai ai! Ai ai!
Abanaram-se, rebolaram-se, caíram da cama, fizeram força em todas as direcções mas em vão.
— És um inútil, odeio-te!
— Maldita! Quero o divórcio!
Tentaram separar-se durante dias, mas a marca de champô que os patrocinava era realmente muito boa, tornando os cabelos fortes da raiz até às pontas.
Foram sepultados juntos.



Maria Alice na Raiz de umas Ervilhas

Maria Alice gostava de esmiuçar os recantos do seu quintal fingindo ser uma corajosa aventureira, como aquelas das histórias que a sua irmã lhe contava ao deitar-se. Sempre se imaginara nas mais variadas expedições a locais nunca antes explorados e encontrando seres magníficos por onde passava.
Certa manhã, Maria Alice vislumbrou um coelho que corria desenfreado por entre as flores do jardim. Não era um coelho normal. Usava um colete e um relógio e parecia muito preocupado, enquanto saltava para dentro de uma toca. «Oh diacho!» pensou Maria Alice enquanto se sobressaltava, «Isto tem “Epopeia” escrito por todos os lados!» Então, aproximou-se cuidadosamente da entrada da misteriosa toca. A abertura era demasiado pequena para que lhe coubesse o corpo. «Se ao menos eu me pudesse encolher com um passo de magia...» Nesse momento agachou-se um pouco e reparou que mesmo ao lado estava uma planta diferente de todas as outras. Não teve dúvidas de que se tratava de um pé de ervilhas e com umas belas vagens prontas a serem colhidas. Aproximou-se mais um pouco e notou que, perto da raiz da planta, estava uma tabuleta minúscula com algumas letras pintadas de forma sublime. Semicerrou os olhos para que pudesse ver com mais detalhe o que estava escrito:
«COME-ME»
Maria Alice não gostava de ervilhas.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Experiência Parentética


O senhor Feijó (que é coxo da perna esquerda (uma vez foi atropelado por uma mota (quem ia a guiar era o Panças (o gordo lá da vila de Bragaços (fica perto da saída da auto-estrada (que, diga-se, já precisava de umas obras (há muitos anos, senhor presidente! (um bananas (são ricas em magnésio (décimo segundo elemento da tabela periódica))))))))) faz anos hoje.


domingo, 23 de fevereiro de 2014

Reencontro

Era hoje!
Que diabo, quando as coisas têm de ser feitas há que fazê-las! Para quê adiar? E também já estava farto de perder noites de sono a pensar naquilo. Não, definitivamente não podia continuar assim. Tinha de pôr um ponto final àquela situação.
E foi assim.
Saí de dentro do pijama de flanela, que as noites ainda estão frias, e enfiei-me com eficácia num magnífico par de calças e numa excelente camisa. A ocasião merecia. Ainda me lembrei de aspergir um pouco de água de colónia. Nunca se sabe!

Peguei no casaco que a minha mãe me oferecera por ocasião do Natal (sempre preocupada com os agasalhos... enfim, há coisas que nunca mudam), chaves, carteira, chapéu e saí. Veloz. Não tinha tempo para pequenos almoços. Bem, para dizer a verdade, tinha era um daqueles nós no estômago que parecem dar a volta ao pescoço e depois às pernas... E não era para menos! Uma coisa destas mexe com os nervos de qualquer um, venha de lá o mais pintado.

Apanhei o autocarro mesmo a tempo. Sentei-me ao fundo, como sempre. Reparei que as minhas mãos transpiravam abundantemente. Tentei concentrar-me. Não podia abandonar agora. Tinha de ser hoje! A viagem parecia interminável. Deu-me tempo para rever várias vezes todo o plano. Nada podia falhar.
Por fim, chegou a minha paragem.

Subi a sua rua em passos curtos e cautelosos. Insegurança. Não era bom.
E lá estava eu, em frente à casa dela! Voltar para trás? Não, não, nem pensar, estava mesmo ali não ia desistir agora. Enchi o peito de ar e avancei para a sua porta. Estanquei-me por instantes, a rever mentalmente as palavras. Levantei o braço e toquei à campainha, determinado. Ainda podia fugir! Não, agora era tarde, ela podia ver-me e aí era o sarilho. A fechadura! Era decididamente tarde. Não havia nada a fazer. Era agora!

Ela apareceu, ainda com a marca na testa. Não havia dúvidas que tinha sido em cheio. Perplexa, não a deixei falar. Ataquei logo.
— Então diga-me lá, senhora professora, por que raio é que mandou chamar os meus pais à escola se foi o zarolho do Marivel quem atirou a primeira pedra? Não tenho culpa que o patife tenha má pontaria!


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Batula

Ao dulitar à compina, baneci os nincómios lambaticamente para cima do casticlasma, mas ribanou-se tudo pelos quórticos.
Estava a ponto de pirilotar, mas depois fanapiei os cinco calcibórticos que trafamundeavam nas balicas e lá consegui arripanar-me. Entretanto, e como o simpasma nunca mais galia, fimbalhei as cuntamidades das tabinas no oupo do trilambetão, o que fez com que o panático espanilasse.
E com isto tudo já me doíam as janetas.
Não sei de onde agritanou o ponílogo, mas lá que obdilatrou, ah isso obdilatrou! E acertou-me em cheio no estibuspo que ainda está hipnátrico.
Por isso olha, esbarrilei-me dali para fora e a partir de agora nunca mais contomino nada sem primeiro manilar as lamiças.


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Burocracias

Era preciso tratar do papel com urgência.
Cheguei à repartição de finanças ainda não eram nove, ao contrário da senhora que abre a porta. Na minha vez tirei a carta do bolso do casaco e depositei-a em cima do balcão, ao mesmo tempo que dava os cordiais bons dias. A menina pediu-me que preenchesse uma formalidade e eu anuí. Claro que tive de desembolsar algum para ter acesso ao formulário, já se sabe ao preço que vai o papel, se for carimbado então...

«Agora é só esperar entre dez a quinze dias úteis e pode vir levantar o seu documento.»

Com a breca! Mas por que diabo levam sempre tanto tempo a emitir um simples papel? Desta vez não fui capaz de conter o meu impulso. Saltei por cima do balcão com uma agilidade notável e corri em direcção à porta que dizia, em letras garrafais, “ENTRADA RESTRITA”. Só podia ser aquela. Antes de ser atropelado pelo segurança que me levou à esquadra ainda consegui ver. Ou pelo menos acho que não sonhei, a pancada ainda foi forte. Dentro da sala estavam: uma tartaruga das galápagos a carimbar, um tigre de bengala a arquivar e dois pinguins que pareciam mesmo estar a assinar documentos, mas não tenho a certeza porque acho que as canetas não funcionam daquela maneira.

De qualquer das formas está tudo explicado. Os pobres bichos podem ser muitíssimo mais inteligentes, especialmente os pinguins, mas não têm polegares para manejar os papéis e as canetas e os carimbos e tudo o resto! Assim também eu demorava uma eternidade.




Publicado no jornal O Riachense a 19 de Fevereiro de 2014