sábado, 29 de março de 2014

Questão de Consistência

— Santinha!
— Obrigada. — disse a moça. Pediu-me um lenço que lhe entreguei de seguida.
— Parece que se resfriou, a menina.
— Assim é. Devo ter-me descuidado com os agasalhos.
Libertas as cavidades nasais dos mucos indesejados, prossegui o diálogo.
— Sabe menina, não quero que lhe pareça mal mas, como cidadão mais velho e vivido, sinto-me no dever de lhe oferecer um conselho, ou melhor dizendo, ensinar-lhe um truque valiosíssimo que a experiência de vida me ensinou e que passo agora a descrever. Há já várias décadas que deixo sempre um pacote de manteiga no parapeito exterior de uma janela, abrigada do Sol, como é evidente. Enquanto a consistência da manteiga não permitir o eficaz barramento do pão-de-forma, nunca saio à rua sem o meu sobretudo! Não me constipo desde 1972.


domingo, 23 de março de 2014

Inflamações

— Ai, Anacleto, ardo de paixão!
— Ardes?
— Mas que calores, meu amor!
— Sentes-te quente?
— Oh sim, quando estou perto de ti a minha temperatura sobe!
— Muito?
— Sim, meu anjo, estou tão quente agora!
— Então abraça lá esta panela e faz uma sopa.


quarta-feira, 19 de março de 2014

O Civil

Desta vez quase fui atingido, mas escapei por pouco. Os da esquerda atacavam sem piedade em todas as direcções, não tinham qualquer tipo de organização ou critério. Os da direita respondiam assertivos, com empáfia e uma certa malícia. Tentei improvisar uma barricada com o que pude encontrar, mas não tinha hipótese. Eram demasiados e o seu poder incalculável. Usavam todo o tipo de armas, desde as mais primitivas às mais modernas, fulminantes. Arrasavam tudo.
As galerias ecoavam sons ríspidos indecifráveis e de uma potência incrível, tal era a intensidade da luta e rivalidade. Já não aguentava mais, tinha de sair dali a todo o custo! Para onde quer que olhasse lá estava um, pareciam todos iguais mas lutavam entre si. Soltei um grito desesperado e apanharam-me. Esperneei, esbracejei e gritei. Tornar-me-ia um deles? Estava a enlouquecer. Foi a minha salvação!
Prefiro estar aqui encarcerado do que voltar lá, àquele campo de batalha horrendo.
É preciso ter estômago para ir ao parlamento.



Publicado no jornal O Riachense a 19 de Março de 2014

terça-feira, 11 de março de 2014

Conquistas

Venâncio e os seus homens pareciam estar a dominar a batalha. Restavam apenas dois marinheiros, comandados pelo capitão Baltazar, contra os onze de Venâncio. O zumbido das espadas silenciava as ondas que rebentavam no casco do velho navio. A luta pelas terras desertas era feroz mas Venâncio sorria, antecipando a sua nova conquista.
O capitão Baltazar foi encurralado na proa e não tinha hipótese. Com um golpe seco e sem misericórdia, Venâncio cortou a perna de Baltazar que caiu sem forças junto ao leme da sua própria embarcação.
Venâncio quis fazer troça do seu velho inimigo e avançou para as terras virgens sem o matar, para que Baltazar o visse clamar as novas terras. Os homens lançaram-se à água num pequeno bote e remaram sob as ordens de Venâncio que seguia de pé, mão esquerda na cintura e a direita empunhando a espada ainda ensanguentada.
Nisto, ouve-se um grito de raiva. Era Baltazar que pegara na sua perna cortada e a lançara para terra. Foi o primeiro a pôr o seu pé nas terras desertas e, por isso, era o legítimo conquistador! Venâncio ajoelhou-se pasmado e submeteu-se ao seu novo líder.


 “Nunca cortes a perna do teu inimigo, se o seu forte são os braços.”


segunda-feira, 10 de março de 2014

Formiga Rabiga e a Pobre Rapariga

Certo dia, o Coelhinho Branco foi à horta buscar couves para fazer um caldinho e quando de lá voltou encontrou a porta fechada. «Ora esta!», pensou o Coelhinho, e bateu à porta.
— Quem está aí? — perguntaram de dentro.
— Isso pergunto eu, a casa é minha! — respondeu o Coelhinho já a começar a ficar com os azeites.
— Eu sou a Cabra Cabrês que te salto em cima e te faço em três! — disse a Cabra toda fanfarrona.
— Ah não, hoje não, é muito tarde e a Rainha está à espera, tenha paciência! — exclamou o Coelhinho Branco enquanto agitava freneticamente o seu relógio — Ou sai imediatamente ou eu chamo a Formiga Rabiga que lhe trepa pelas pernas e lhe fura a barriga!
Nesse momento, surge Maria Alice a correr muito atrapalhada mas decidida.
— Não é preciso Senhor Coelho, eu estou aqui e vou ajudá-lo. Dê-me só um bocadinho da sua couve e vai ver que resolvo o problema num instante!
O Coelhinho Branco olhou Maria Alice de esguelha mas lá a deixou arrancar uma folha à couve. Maria Alice trincou um pedaço e mastigou.
— Um pouco rija... — disse Maria Alice e enfiou o resto da folha de couve na boca. Mastigou, mastigou e mastigou ruidosamente até que, depois de uma pequena pausa, engoliu a couve. A Cabra Cabrês que olhava com grande atenção através do buraco da fechadura deu um grande trambolhão e desatou a rir a bandeiras despregadas.
— Tu realmente não serves para nada! — resmungou o Coelhinho Branco.


sexta-feira, 7 de março de 2014

A Fábula

Uma vez contaram-me uma fábula. Falava de um pobre diabo condenado a passar a eternidade nas profundezas do inferno, pagando pelos pecados que cometera em vida. Certa vez, cansado que estava do calor e das torturas, o pobre diabo decidiu mudar. Passou a ser bom. Ajudava os seus semelhantes a refrescarem-se um pouco, dava-lhes abraços e beijos, espalhava sorrisos e distribuía palavras de esperança por toda a sua gente. Prometia tudo fazer para garantir uma melhor eternidade aos habitantes daquele inferno miserável. Era adorado por todos.
Olhando de cima, Deus comoveu-se com a bondade do pobre diabo. Mandou então dois anjos tratarem de o trazer para o céu. «Meu bom filho, vem que estás perdoado!»
Aliás, não era assim... Agora que penso não era uma fábula sobre um pobre diabo. Era antes a história de um membro de um partido que um dia chegou a Primeiro-Ministro. Fiz confusão.
Escusado será dizer que o rico diabo voltou a fazer diabruras.


Publicado no jornal O Riachense a 5 de Março de 2014

quinta-feira, 6 de março de 2014

A Dieta

Era uma vez uma pessoa gorda. Essa pessoa era de facto gorda.
— Quem me dera ser magra! — disse a pessoa gorda.
E foi então que a pessoa gorda decidiu ser magra.
Começou por ler um artigo numa daquelas revistas sobre pessoas gordas que querem ser magras. Bem, na verdade só leu as letras gordas: "SOMOS O QUE COMEMOS", diziam as letras gordas.
— Parece fácil! — disse a pessoa gorda.
E assim foi.
Comeu uma pessoa magra.


terça-feira, 4 de março de 2014

Gadelhas

O Príncipe estava já impaciente, agitando a colher para trás e para diante.
— Despacha lá isso, mulher! — Dizia, quase perdendo as estribeiras.
— Cá vou, cá vou! Não me apresses! — era Rapunzel. Vinha com a terrina da sopa nas mãos e o cabelo mal atado à cintura. Uma madeixa, porém, tinha-se soltado e prendera-se à porta do armário da cozinha. Rapunzel deu um gritinho estridente enquanto mandava um magnífico trambolhão. Felizmente já tinha prática e conseguiu entornar apenas metade do apetitoso caldo. O Príncipe suspirou e enfiou a cabeça no prato vazio. Ergueu-a de novo e resmungou:
— Diacho, mulher, sempre a mesma coisa! Corta-me o raio desse cabelo antes que haja chatices!
— E o patrocínio? Achas que o pão que comes cresce nas árvores? E os legumes trazem-nos uns duendes simpáticos? — Rapunzel sentou-se no chão e espremeu o cabelo. — E uma mãozinha, não vai? — O Príncipe lançou-lhe o guardanapo. — Paspalho!
— Vá, levanta-te e anda comer, tratas desse molho de brócolos mais tarde.

Servidos os pratos e sanados os ânimos começou o jantar.
— Puseste esparguete na sopa?
— Esparguete? Não, que disparate!
— Ah, mas que sina a minha! Cabelo na comida outra vez?!
— Põe à borda do prato.
O príncipe pegou numa ponta e começou a puxar. E continuou. E mais um pouco.
— Que nojeira. — murmurou o Príncipe. Rapunzel parou de comer e olhou-o demoradamente.
— Que figuras.
— Isto pega-se a tudo! — ripostou ele tentando desembaraçar-se e enrolando-se cada vez mais. — Raios! Come tu a sopa, eu vou ao pão com chouriço! — Levantou-se e dirigiu-se à cozinha ainda a esbracejar. Entretanto, Rapunzel também tinha encontrado um dos seus enormes fios capilares no prato. Ergueu-se da cadeira e foi limpar o cabelo que ainda estava ensopado.

Encontraram-se de novo no quarto.
— Não ponhas essa maldita cabeleira na cama, está cheia de cotão.
— Raios partam a electricidade estática.
— Não sacudas isso aqui, ainda começo a espirrar.
— Olha, pára de reclamar e dorme que amanhã é dia de o lavar.
— Chiça!
Apagaram as luzes e dormiram. O Príncipe teve pesadelos com a lavagem do cabelo e rebolou-se na cama toda a noite. Rapunzel também estava desassossegada. Os cabelos enredaram-se, emaranharam-se, embaraçaram-se, enrolaram-se e entrançaram-se durante horas até que o casal não pôde mais mexer-se.
— Socorro! Não consigo respirar! — gritou Rapunzel aflita
— Ai mãezinha! — Sobressaltou-se o Príncipe um tanto histérico.
— Ajuda-me seu sacripanta!
— Ai ai! Ai ai! Ai ai!
Abanaram-se, rebolaram-se, caíram da cama, fizeram força em todas as direcções mas em vão.
— És um inútil, odeio-te!
— Maldita! Quero o divórcio!
Tentaram separar-se durante dias, mas a marca de champô que os patrocinava era realmente muito boa, tornando os cabelos fortes da raiz até às pontas.
Foram sepultados juntos.



Maria Alice na Raiz de umas Ervilhas

Maria Alice gostava de esmiuçar os recantos do seu quintal fingindo ser uma corajosa aventureira, como aquelas das histórias que a sua irmã lhe contava ao deitar-se. Sempre se imaginara nas mais variadas expedições a locais nunca antes explorados e encontrando seres magníficos por onde passava.
Certa manhã, Maria Alice vislumbrou um coelho que corria desenfreado por entre as flores do jardim. Não era um coelho normal. Usava um colete e um relógio e parecia muito preocupado, enquanto saltava para dentro de uma toca. «Oh diacho!» pensou Maria Alice enquanto se sobressaltava, «Isto tem “Epopeia” escrito por todos os lados!» Então, aproximou-se cuidadosamente da entrada da misteriosa toca. A abertura era demasiado pequena para que lhe coubesse o corpo. «Se ao menos eu me pudesse encolher com um passo de magia...» Nesse momento agachou-se um pouco e reparou que mesmo ao lado estava uma planta diferente de todas as outras. Não teve dúvidas de que se tratava de um pé de ervilhas e com umas belas vagens prontas a serem colhidas. Aproximou-se mais um pouco e notou que, perto da raiz da planta, estava uma tabuleta minúscula com algumas letras pintadas de forma sublime. Semicerrou os olhos para que pudesse ver com mais detalhe o que estava escrito:
«COME-ME»
Maria Alice não gostava de ervilhas.