segunda-feira, 14 de abril de 2014

Sibilante

Se Susana Sousa saísse sozinha, sabia saltar sobre seixos secos sem se sujar. Sabia soletrar sílabas simples. Sabia secar soalhos. Sabia semear salsa. Sabia situar seis secções semelhantes…
Sua sobrinha Sara Sofia Santos, sentinela, salvou sete senhores sem sangrar.
- Sara!
- Sim?
- Sobe!
- Sim, senhora!
Seguidamente Sara sentou-se sobre saliências sujas.
- Socorro! Sujei-me!
- Sara, sujas-te sempre! Safa! – Suspirou Susana.


quinta-feira, 10 de abril de 2014

O Impostor

Partiu o velho naco de pão em três, um para ela, um para o homem, outro para o petiz. Era já muito rijo mas sabia bem mergulhado no leite. Sopas, como se diz.
Também três foram as leves pancadas que soaram da porta. Quem poderia ser tão cedo, era o que perguntava a mulher a si mesma enquanto tentava ajeitar o cabelo desgrenhado e oleoso que lhe cobria a face branca e exageradamente magra.
Era um homem vigoroso, limpo, fato impecavelmente engomado e gravata com um nó perfeito. Trazia uma mala. “Teria a bondade de ajudar com o que tiver, minha nobre senhora? É pelo bem da Nação.” A mulher condoeu-se do pobre senhor e logo lhe entregou o fio que trazia ao pescoço, uma lembrança que lhe dera a sua mãe. “É tudo o que tenho”, disse a mulher. “Muito obrigado. Que o senhor presidente esteja consigo”.
O cobrador de impostos guardou o fio na mala, junto das outras jóias, e partiu para a porta seguinte.
No outro mês tinha-se acabado o pão naquela casa velha e vazia.




Publicado no jornal O Riachense a 9 de Abril de 2014