sexta-feira, 20 de junho de 2014

Paixão

A Paixão surgiu logo no primeiro dia, ardilosa e autoritária. A sua argúcia enlevou as hostes que passaram a glorificá-la. Era ver os suplícios a que se dispunham para servir a grandiosa Paixão. Ergueram monumentos, sacrificaram vidas, ofereceram os melhores alimentos, festejaram noite e dia mostrando o seu amor e subserviência.

Todavia, apesar das artimanhas, havia quem resistisse à velha perícia ludibriosa da Paixão. No seio do domínio apaixonado estava uma pequena moça sentada num pedestal penteando os longos e sedosos cabelos ondulados. Era a Indiferença. 

A Paixão bramiu e sacudiu, ordenou que todos se unissem para conquistar a obstinada Indiferença. Mas por maior que fosse a luxúria em seu redor a pequena não se movia. Ardendo de cólera, a Paixão matou todos os seus súbditos, destruiu os campos e as casas, derrubou os monumentos, queimou as árvores e prostrou-se aos pés da Indiferença, implorando por um gesto. A Indiferença ergueu-se e partiu dizendo:

«Os teus artifícios não me impressionam e a tua impaciência aborrece-me. Senta-te no meu pedestal e olha à tua volta, vê o que fizeste. Como posso gostar de ti?»



quarta-feira, 4 de junho de 2014

O Jardim

Olhando pela janela da sala (e não estou a falar da televisão) vejo que tenho o jardim cheio de ervas daninhas (e não me refiro aos políticos nem aos grandes empresários); os arbustos têm imensos ramos mortos a tirarem força aos novos (e isto não quer dizer que há por aí muita gente que não faz nada a ocupar o lugar de quem realmente trabalha); as árvores estão a morrer à sede (e não falo da má distribuição do dinheiro); os frutos estão a cair (e não digo que há cada vez mais desempregados); o poço está a ruir (e isto não tem nada a ver com o sistema de ensino completamente ultrapassado); o muro está a desabar (nunca falei em presidente ineficaz!); o portão está partido (partido?); há lixo por todo o lado (eia, esta foi forte).
Enfim, não quero com isto fazer metáforas.
O que quero realmente dizer é que o meu jardim precisa de uma intervenção de fundo. Mas não tenho dinheiro para o jardineiro. Por isso, vou eu mesmo cuidar dele, com a ajuda de quem me quiser dar uma mãozinha.
No fim, faremos um belo lanche à sombra daquela macieira velha (e com isto quero dizer que há remédio!).



Publicado no jornal O Riachense a 4 de Junho de 2014

Moda

Hoje, enquanto passeava pelo parque, um crocodilo devorou-me a perna.
E as calças eram novas!