quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Carta Aberta

Ao senhor ministro responsável pelas questões climatéricas.

Serve o presente manifesto para dar conta ao Senhor Ministro e restante executivo da indignação que impera no seio da população portuguesa perante este cenário vergonhoso que se nos apresenta e que têm o atrevimento de chamar “Verão”!
Depois de toda a política de austeridade, cortes inadmissíveis nos salários e pensões, aumentos psicopatas na carga fiscal e mais toda a pouca vergonha que nos entra em casa todos os dias, ainda tem o Senhor Ministro o desplante de vir cortar também naquilo que é nosso por direito! Dada a localização geográfica do país está mais que sabido que o calor e as noites quentes de Agosto florescem naturalmente por todo o território continental durante este período, pois então o que é feito disso tudo, Senhor Ministro? Foi parar à Alemanha? É com isto que se pagam as dívidas criadas pela vossa incompetência e ganância?
Mais lhe digo, Senhor Ministro, que o país só perde com estas políticas de interesses. Somos um país de turistas que procuram nas nossas terras aquilo que não há nas suas, isto é, Sol! Estando os Senhores a desviar o nosso património estão também a destruir a economia nacional e a comprometer seriamente o futuro dos nossos filhos.
E estes ventos reles? Diga lá, Senhor Ministro, quem é que quis agradar com isso? Malbaratar os dinheiros dos contribuintes nesta miséria de escolhas climatéricas! Cheira-me a mais um esquema obscuro qualquer que não tarda se vai ouvir falar. Mas saem sempre todos incólumes!
Enfim, é o país que temos. Apanham-se no poleiro e é tudo a meter ao bolso. Na sua casa de certeza não há falta de calor.


quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Fumar Mata

Glup.
De uma assentada esvaziou mais um copo de whisky duplo. Depois entreteve-se com as pedritas de gelo. Primeiro, com os dedos dentro do copo, misturava-as com o vazio para um lado e para o outro, irritando o dono da taberna até quase perder as estribeiras. Logo enfiou-as na boca e cuspiu-as para o ar soltando uma risada histérica. « Basta!» Barafustou o taberneiro atirando a toalha para cima da caixa registadora «Não lhe sirvo mais nada! Salde a sua conta e dê corda aos sapatos!» O pinguço fez uma carantonha meio de espanto outro tanto de repúdio enquanto se inclinava para trás, mantendo o equilíbrio não se sabe bem como. Atirou-se para o balcão e agarrou a garrafa que escorropichou com enorme destreza. «Aaaaah!» Atirou umas moedas para o ar e cambaleou até à porta derrubando duas cadeiras e um cinzeiro pelo caminho. «Beço desgulpa, minha zenhora.»

Deteve-se abraçado a um simpático candeeiro que teve a amabilidade de o amparar evitando maiores infortúnios e investigou os bolsos até dar com os cigarros. Colocou um nos lábios e tacteou de novo a roupagem em busca do isqueiro. Levou algum tempo até conseguir alinhar o instrumento flamejante com a ponta irrequieta do cigarro. Por fim, lá fez a faísca. Antes que o cigarro tivesse tempo de se acender já o bafo alcoólico do homem tinha provocado uma enorme bola de fogo que iluminou a taberna por breves segundos.

«Estas explosões vão acabar por afastar a clientela» pensou o taberneiro enquanto riscava o nome do homem da sua agenda.


Publicado no jornal O Riachense a 5 de Agosto de 2014