quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Jóia de Moço

Nasceu num berço humilde, alimentando-se do seio fraco da jovem viúva, sua mãe. Cedo se habituou a viver com o pouco que lhe chegava a casa. Não era dado a grandes correrias como os outros meninos, o alimento perdurava no organismo por pouco nutritivo que fosse. Mas nem por isso deixava de ter amigos, aliás, todos gostavam dele. Aprendeu a curar as feridas dos joelhos e cotovelos dos colegas que jogavam à bola, ajudava todos a fazer os deveres, dizia sempre "Bom dia" quando se cruzava com alguém e, mais importante que tudo isso, estava sempre a sorrir! Chamavam-lhe Coração de Ouro.
Arranjou trabalho, mas todo o dinheiro que recebia confiava-o à mãe, sua companheira de toda a vida. Nunca quis nada para si, dizia que as "coisas" o faziam doente e sempre que se via a braços com uma "coisa" procurava de pronto alguém que lhe fizesse melhor proveito. "Ai, meu bom homem, é mesmo como dizem: o teu coração é do mais puro ouro!"
Por ali passava um forasteiro de ouvido aguçado que logo esfregou as mãos e encurvou as costas. Assim que se apanhou a jeito deitou as mãos à navalha e cravou-a fundo no peito do homem do coração de ouro. Vasculhou as entranhas em busca do metal precioso e puxou com força para fora. Sacudiu o sangue e espetou a trivial dentada.
Era pechisbeque.