sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Macacadas

A minha mãe conta sempre a mesma história. E eu que sou o mais velho, lembro-me de a ouvir em todos os jantares de família. Já a sei de cor. Vem a sobremesa e começa o teatro. Acho que já é tradição haver bananas como pretexto de a contar. Alguém tira a casca ao fruto amarelo e brinca: «Olha a casquinha, olha, olha» e os outros «óóóó áááá» e riem-se muito alto. O meu irmão é muito envergonhado e não gosta e eu tenho pena dele. Depois há outro que se levanta e põe uma almofada por dentro da camisola, tentando fingir uma gravidez. «Não é assim, homem!» grita a minha tia e mete a mão nos rins e sopra, sopra aflita. O meu tio Mário, que traz sempre uma garrafa de vinho só para ele por se achar um grande especialista (às vezes ouço os outros a comentar baixinho que é uma zurrapa), ajeita a casca no chão com esmero. Ainda curvado, abre os braços e alerta: «Cuidado, cuidado, muita cautela!». «Ó Marta, é a tua vez!». É então que a minha mãe se levanta e se enquadra com a casca que repousa no chão.
Eu ainda me lembro daquele dia. Vínhamos do centro comercial e eu comia um gelado de baunilha e chocolate. A minha mãe e o meu pai conversavam animados. Foi aí que se pisou a famosa casca. O pé da frente mais para a frente foi, o de trás não quis acompanhá-lo e uma magnífica espargata surgiu em plena Rua da Glória. «Uuuuiii!»
O meu irmão nasceu nesse dia.



Baseado em factos factualmente factuais.

Publicado no jornal O Riachense a 5 de Novembro de 2014