quarta-feira, 25 de março de 2015

Gerações

O pai ergueu a mão, estendeu o indicador e vociferou: «Onde estão as minhas pantufas, com mil demónios?!» Do outro lado da casa ouviu-se um estilhaçar agudo. O crianço mais novo quase voou pelo corredor: «Aqui estão, meu pai!» Disse, esticando o braço o mais que podia. ZAC! «Esta é para aprenderes a tratar dos teus deveres, meu patife!»
Na cozinha gritava a mãe: «Lava-me esse chão como deve ser, malvada, olha p'ra isso!» A pequena esfregava com mais força, até lhe ferirem as mãos: «Sim, minha mãe.»
«Dá-me a camisa!» «Limpa-me as alparcatas!» «Traz-me o cinzeiro»
«Tira, põe, leva, traz, limpa, cose, cala, mexe, acende, varre, vira»
«Diacho, mulher, temos de fazer mais um que estes já não dão conta dos recados!»

Os filhos cresceram. Deixaram a velha casa e os velhos que os criaram. O mais novo casou cedo, com a pressa de se fazer homem.
Ergueu a mão, estendeu o indicador: «Onde estão as minhas pantufas?» gritou o pequenote no sofá. «Já vou, meu filho!»
«Quero aquele brinquedo!» «Traz-me um copo de água!» «Leva-me ao acampamento!» «Tenho fome!» «Cala-te! não ouço os desenhos animados!»





Publicado no jornal O Riachense a 25 de Março de 2015



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