sábado, 11 de abril de 2015

Ubiquidade

«O Senhor está preso!»
Saltaram-lhe para o cachaço, esbofetearam-no, algemaram-no, arrancaram-lhe a roupa e os cabelos e arremessaram-no de cabeça para dentro da viatura blindada das Forças Especias do Governo que se dissipou num ápice.
O folhado de salsicha, agora órfão e levemente marcado pela dentição do criminoso, ficou prostrado no soalho da cafetaria, junto de uma calma poça de café fumegante. «É sempre quem menos esperamos» suspirou o empregado do estabelecimento, não escondendo a mágoa que lhe carregava o semblante. E limpou.
Já sem dentes, ossos quebrados e pele coberta de fluidos ricos em glóbulos vermelhos, o criminoso pedia clemência debaixo dos holofotes que lhe laceravam as vistas. «Não adianta. O sacana foi bem treinado. Livrem-se dele!»
A execução foi uma graça vinda dos céus, acabando com a falta de imaginação dos Agentes Governamentais que esgotaram as técnicas de tortura.
O corpo do criminoso foi depositado na cova com o merecido desprezo. E assim, a Agência Ultra-Secreta Anti-Governamental ficou desapossada do seu Espião mais secreto. Tão secreto que nem ele próprio sabia que tinha sido nomeado para o cargo.
Mas o Governo sim, sabia.
O Governo sabe tudo.





Publicado no jornal O Riachense a 8 de Abril de 2015


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