sábado, 9 de maio de 2015

Domingo

Certa manhã, numa daquelas casas típicas das histórias que se contam às crianças pequenas antes de dormirem, havia uma menina. Lá está, típico.

«Isto é que são horas de levantar?» indagou a típica mãe solteira/divorciada «Não me chateies!» ripostou a menina nada simpática «Olha lá como falas com a tua mãe!» «Pff» «Mau! Logo à tarde quero que vás a casa da tua avó levar-lhe isto.» «Eia, oh mãe!» «Oh mãe nada! Vais e acabou. Não posso ser sempre eu a fazer tudo nesta casa.» «Fogo!»

A menina e a sua mãe almoçaram rabujentamente, trocando sarcasmos familiares. Depois a menina foi aperaltar-se.
«Não penses que vais assim vestida!» balbuciou a mãe estupefacta «Eu vou como eu quiser!» «Se o teu pai te visse assim...» «Fazia o quê?» «Bom, veste o casaco ao menos.» «Pronto.» «Nem te vou dizer o que pareces com isso.» «Olha, até logo.» TRUZ!!! Não houve recomendações de trajectos a evitar porque seriam palavras deitadas ao vento.

A menina lá foi de sobrolho franzido e passo sonoro pelos caminhos campestres. A Primavera estava no pináculo da sua glória, vangloriando-se com estupendas flores que a menina ignorava com empáfia. Todavia, por questões de natureza própria, não conseguia ignorá-las com eficácia, tal era a comichão que lhe avermelhava a pele e os olhos. A certa altura os espirros e a tosse tomaram conta da situação e não havia cá anti-alérgicos que lhe valessem. Um caçador que por ali passava deu com a menina desmaiada e de pronto invocou as autoridades competentes que a encaminharam a ambientes hospitalares estéreis.
A sorte é que já não há lobos para se aproveitarem das meninas indefesas.




Publicado no jornal O Riachense a 6 de Maio de 2015

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