sexta-feira, 19 de junho de 2015

Barreiras Psicológicas

As escadas do prédio pareciam intermináveis. Ou isso ou sou eu que estou ficar velho, perco o fôlego com uns míseros três patamares. No último degrau quase tinha vontade de dar um grito de alegria. Venci-vos, com a breca! Detive-me um instante, ajeitei o fato e bati à porta.
— Mas o que vem a ser isto? — vociferou a porta, indignada — Que mal lhe fiz eu?
— P-peço desculpas. Não queria ser rude.
— Ai não? Então chega aqui e dá-me três pancadas secas e diz que não quer ser rude? Isto só visto! Ainda por cima com os nós dos dedos!
— Bem, eu só queria falar com o senhor que vive nesta casa. Pensei que… normalmente batendo à porta… uma questão de educação…
— Educação?! Valha-me Deus! Parece impossível, não sabe tocar à campainha?
— Ei ei ei, calminha, amiga, a mim ninguém me toca! Não conheço o senhor de lado nenhum, não se atreva a tocar-me com essas manápulas.
— E a mim ninguém me bate!
— Minhas… s-senhoras… peço mil perdões pelo incómodo, mas… será que poderiam chamar o vosso dono?
— Dono?!
— Sinceramente, isto passa das marcas, nunca fui tão insultada na vida!
— Com quem pensa que está a falar, seu desavergonhado?
— É realmente muito inconveniente, eu cá não chamo ninguém.
— Eu também não!
— Então mas… como é que eu… sabem, eu sou novo nisto, não conheço bem o protocolo…
— Pfff
— Pfff
Ainda fiquei ali por uns minutos pensado no que poderia fazer para entrar. Mas não adiantava. Nestes momentos bloqueio sempre.
Ao descer as escadas ainda ouvi um comentário da porta, que não fez muito para fazer segredo.
— Juro-te que se não tivesse presa às dobradiças me atirava para cima dele com toda a força.