sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Moléstia

O Pai caminhava de olhos postos no horizonte, preciso e ousado mas lento. Não esquecia que ao seu lado estava a Filha pequena segurando a mão firme do Pai.
— Por que é que vamos falar com o Senhor da loja, Papá? — indagou a Filha entusiasmada.
— Não é o Senhor da Loja — explicou o Pai — é o Director. O Chefe da Loja. De todas as lojas. O Director da Empresa que comanda as lojas!
— Ah, então é ele o culpado do arroz fazer aquelas bolinhas de sabão saltarem da panela?
— Sim.
Caminhavam ao longo da estrada do campo, entre os Montes de Lata e a Mata do Polipropileno. Ao fundo, já se avistava o Ribeiro Peçonhento. Disse o Pai:
— Vamos atravessar a ponte, Filha, já sabes o que fazer?
A pequena cerrou o punho e esticou o polegar para cima enquanto aspirava uma valente porção de ar. Fez que sim com a cabeça e correram.
Já do outro lado, expeliram todo o ar com estrondo e riram.
— Papá, é verdade que antigamente os filetes andavam no rio?
— Sim, Filha. Há muitos anos os peixes podiam nadar livremente nos rios e nos mares.
— Ah então agora também é proibido? Mas como é que eles aguentavam o cheiro?
— Antigamente os rios não cheiravam mal.
— A sério?!
— Eram feitos de água.
— Água? Mas então não havia muitos rios, pois não? Tu disseste que a água é muito cara e é difícil de encontrar!
— Havia… eu depois explico… é uma história muito complicada. Chegámos!

A astúcia do Pai levou-os facilmente ao topo do edifício onde se sentava o pecunioso Director.
— Que queres, vassalo? — inquiriu o dito magnata.
— Vossa Directoria, venho falar-vos deste arroz que me vendestes — disse o Pai com uma vénia.
— Que tem ele?
— Faz bolinhas de sabão na panela, meu Director.
— É a nova garantia de qualidade.
— Mas, vossa Directoria, isto não é natural! Com todo o respeito para convosco, nós preferimos arroz autêntico.
— Insolente! Como te atreves?! Esse arroz foi produzido sinteticamente através da mais elevada tecnologia, a partir de compostos químicos altamente puros! Comercializamos arroz de todas as cores, sabores e feitios! Incluindo uma réplica fiel do arroz de outras eras! Que queres mais?
— Precisamente isso, vossa Directoria, queremos o arroz que nos deu a Natureza.
— Quem?
— A Mãe Natureza.
— Não te atrevas a falar dessa asquerosa megera na minha presença! Retira-te imediatamente!
— Com certeza, meu Director, desculpai-me a ousadia.
O Pai saiu correndo do edifício levando a sua amada Filha nos braços. Não teve coragem de a colocar em perigo. A Filha fazia perguntas mas de nada lhe valia. Atravessaram de novo a ponte. Mas o Pai não aguentou, teve de se mexer.
— Filha, não podemos permitir isto. Desculpa-me.
O Pai acendeu um fósforo e deixou que caísse no Ribeiro Peçonhento. O fogo seguiu a corrente viscosa até ao rio e depois até à foz. Os oceanos arderam, os rios, as montanhas, as cidades. Tudo ardia numa questão de segundos. As cores eram incríveis e os vapores de uma beleza magnífica.

— Ena! Mas que luz tão brilhante! — disse o Sol com inveja.