quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Problema de Memória

Acordei às sete, como é hábito. Sou uma pessoa que precisa de rotinas. Não é que goste particularmente disso, mas há que admitir que sou um tipo distraído. Por isso, todas as manhãs são iguais. Levanto-me, tomo um duche, corto a barba, pequeno-almoço e saio. Sempre metódico, para não me falhar nada. Antes de fechar a porta verifico todos os bolsos, não vá esquecer-me de alguma coisa. À noite, preparo a mala para o dia seguinte, com calma, e rezo para não me esquecer dela em casa. Tem acontecido menos vezes.

Mas naquela manhã tinha a estranha sensação de me estar a esquecer de algo realmente importante. Continuei a revistar todos os bolsos enquanto caminhava e cantarolava mentalmente a lista de coisas que deveria trazer comigo, em mnemónicas pacientemente elaboradas. Não parecia faltar nada. No autocarro, percorri a agenda, com rigor. Tudo em ordem. E a sensação continuava. Que coisa!

Entrei na firma um pouco antes das nove. Saudei a dona Elga que me olhou demoradamente. Não me cumprimentou. Sinceramente sempre a achei um pouco antipática, enfim. Entrei no escritório desejando um bom dia a todos. Nenhuma resposta. Que diabo!, bela maneira de pôr alguém mal-disposto logo de manhã! Acelerei o passo até ao meu gabinete e abri a porta de rompante. Mau! Não, isto já era demais, que não me cumprimentem ainda posso aceitar, agora que ocupem a minha secretária e mexam nas minhas coisas? Isso é que não! Inquiri-o logo.
— Que faz o senhor aqui? E mais, quem é o senhor?
— Eu sou o novo contabilista da empresa...
— Novo? Como assim, novo?

E foi aí que me veio à memória. De facto, eu tinha morrido em Fevereiro.
Sou realmente um tipo distraído.